quarta-feira, 26 de outubro de 2011

"Trocando Passes" - Entrevista com a ex-jogadora Kátia Silene


Natural de Itaquiraí (MS), Kátia Silene começou a “marcar os primeiros gols” na década de 80 em sua cidade. Depois, em 1986, mudou-se para Campo Grande, onde começou a jogar pela equipe Comave. Hoje, a ex-jogadora é formada em Educação Física, tem Especialização em Esporte Escolar e trabalha como diretora-adjunta da Escola Municipal Irene Szukala. Em entrevista, Kátia conta um pouco da sua história com o futsal feminino.

Quando você começou a jogar futsal?
Comecei no interior em torneios internos, tinha campeonatos dentro da escola, interclasse. Depois surgiu o primeiro campeonato regional, com a participação das equipes de Eldorado, Itaquiraí, Mundo Novo e Naviraí e aí eu fui participar destes jogos representando Itaquiraí. Neste campeonato o time de Naviraí me convidou para jogar por Naviraí na Copa Morena, foi aí que tudo começou, pois foi nessa 1ª Copa Morena, jogando por Naviraí, que conheci algumas jogadoras de Campo Grande, da equipe Comave. Na época (1986) eu também praticava basquete e fui convidada para jogar por um time da capital com bolsa de estudos, aí resolvi vir estudar, fazer o Ensino Médio em Campo Grande, mas quando cheguei reencontrei as meninas da Comave e já comecei a treinar com elas. Conversei com meus pais e, meu pai disse: “- Faz o que você gosta, eu pago os seus estudos”. E assim começou a minha trajetória com o futsal feminino.

Onde vocês treinavam?
Treinávamos no Horto Florestal, Quadra Bar (atual quadra do Pelezinho), Manduzão, Base aérea. Quem nos treinava era o técnico Lucênio Vieira.

Quanto aos aspectos técnicos da equipe, você planejavam jogadas? Como eram os treinamentos?
Não tanto quanto hoje, mas tinha jogadas sim, por exemplo, naquela época o lateral era cobrada com a mão e nós fazíamos jogada em cima disso, eu jogava como fixo e ala direita. As meninas tinham habilidade, mas não tinham a tática, quem nos ensinou a trabalhar a tática foi o técnico Lucênio, que começou a incorporar, dar cara ao time daquilo que todo mundo esperava do futsal, ele nos ajudou muito, ele levou a equipe ao máximo do que o Estado poderia ter na época. Hoje o futsal feminino tem um tratamento totalmente diferente, tem um treinamento específico para as meninas, dentro da idade, existe preparação emocional.

Pela época em que vocês jogaram (anos 80), pode-se dizer que vocês foram as precursoras da modalidade em Campo Grande?
Não é que fomos a primeira equipe, fomos o time que se destacou na década de 80, participamos de todas as Copas Morena, Copa Brasil feminina, aliás, fomos o primeiro time do Estado a sair para uma Copa Brasil feminina, em 1990 viajamos para a cidade de Mairinque, interior de São Paulo, e disputamos o 1º Trófeu Brasil de Futebol de Salão feminino.

E como foi essa participação no primeiro campeonato brasileiro de futsal feminino?
Nós disputamos essa taça com vários times do Brasil e alcançamos o 4º lugar. Na disputa do 3º e 4º lugar perdemos para o Vasco da Gama, que tinha jogadoras como a Formiga, Pretinha, era “O” time. Foi o nosso primeiro campeonato nacional, e esse resultado nos surpreendeu porque na nossa realidade nós tínhamos muitas dificuldades, mesmo tendo patrocínio, era um respaldo que nós não esperávamos porque nós estávamos diante de equipes fortes, sabíamos que tínhamos uma situação complicada, com a 4ª colocação saímos de lá “felizes da vida”. Nessa competição fui considerada uma das melhores jogadoras. Pelos comentários da época, dos jornais, inclusive o texto que tem na placa de congratulação que eu ganhei é referente a questão da técnica, fui considerada uma das melhores jogadoras em questão disciplinar e técnica, fui uma das atletas que não recebeu cartão amarelo, cartão vermelho, nada que abolasse a minha conduta disciplinar, agora isso é na opinião deles eu não sei se fui tão assim (risos).

Como era jogar em um período no qual o futsal era visto como uma modalidade masculina? Existia algum tipo de preconceito?
Se hoje ainda se sente o preconceito, imagine a 20, 25 anos atrás, era complicado. Sempre tive o apoio da minha família, pra mim isso foi primordial, tanto meu pai quanto a minha mãe iam assistir aos jogos, me acompanhavam, mesmo naquela época.
O feminino ainda enfrenta um pouco de preconceito, mas hoje é menos visível, você ainda encontra uma certa resistência, mas nós nunca ligamos muito para esta situação de preconceito. Hoje o olhar sobre o futsal feminino é outro, elas são valorizadas, são respeitadas, as meninas são mais femininas, o futsal resistiu ao tempo e ao preconceito e chegou a um estágio que merece ser pontuado.

Pra fechar, o que o futsal feminino representa pra você? Faz parte da sua vida?
O futsal fez e ainda faz parte da minha vida, antigamente como jogadora, hoje como técnica. Cheguei a fazer curso de arbitragem, mas não exerço porque não dá tempo. Tudo que envolve o futsal eu estou no meio, sempre quero estar no meio. É um esporte que marcou muito a minha infância, minha adolescência, a minha vida!


Foto: Arquivo Pessoal Marcia Moraes

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